Vinho no freezer?

por Evandro Barreto

Problemas recorrentes provocam reações correspondentes. Por isso, resolvi tirar do freezer as fórmulas que desenvolvi, a partir da sofrida experiência própria, para combater uma praga moderna mais ameaçadora que a gripe suína.

Mal começa o pretenso inverno carioca e lá vêm eles de novo: os enochatos ululantes. Logo no início das história dos Comensais, há mais de dois anos, postei um texto sob o título “Antídoto para enochatos”, que reproduzo abaixo, por justa causa.

Antidotos contra enochatos
postado originalmente em 18/01/2008

Tomara que não, mas pode acontecer. Num desses ritos tribais inevitáveis, festa de fim de ano da empresa, jantar de desagravo a senador absolvido, você pode vir a dividir a mesa com um enochato ululante – e só descobrir com quem se sentou quando ele cheirar com ar de nojo a rolha do vinho mercosulino comprado pelo dono do buffet num atacadista informal da fronteira. Mas aí será tarde demais para puxar qualquer outro assunto.

Como esse tipo de parceiro de mesa parece sentir irresistível atração pela minha companhia fortuita, acabei por acumular experiência específica, o que me possibilitou descobrir antídotos para maus discursos a respeito de bons vinhos.

É verdade que tive bastante tempo para pesquisar. Quando um enochato fala, não faz a menor questão de interatividade. Você pode pensar com calma enquanto o cafezinho não chega. Por puro espírito de solidariedade, abro mão de eventuais direitos de autor e passo ao domínio público cinco fórmulas testadas com êxito.

Escolha a que melhor combine com o seu estilo pessoal.

1) Entre no clima – Mostre-se deslumbrado pelos conhecimentos do interlocutor e pergunte se é verdade que o aquecimento global chegou à Patagônia e está acabando com os vinhedos da província de Nestor e Cristina Kirchner. Qualquer que seja a resposta, você terá o gancho que precisa para mudar o foco para política sul-americana e falar mal do Hugo Chávez até a hora de se despedir.

2) Vinhos de estação – Surpreenda o inimigo com uma questão técnica. Pergunte se ele concorda que, a partir de 1998, mais franceses têm se deslocado de Denfert-Rocherau para Chateau de Vincennes. Talvez ele não perceba que você se refere a duas estações do metrô de Paris.

3) Revele os seus limites de conhecimento e verba – Confesse que você não vai alem de um Saint Emilion com pratos de carne e hesita na hora do peixe. Então, peça humildemente um conselho: entre os brancos do Loire, qual ele recomenda?

4) Paquere a mulher dele – Olhos nos olhos, e acariciando com prazer e perícia o bojo do seu próprio copo, pergunte o que ela prefere para acompanhar a sobremesa: a sabedoria maliciosa de um Chateau de Yquem ou o abismo de tons e cores de um Porto Taylor envelhecido 20 anos?

5) Se as alternativas anteriores falharem, ponha vintão na mão do garçom para derrubar a garrafa na roupa do oponente.