Zé Garçom *

Por Márcia Luz | 20 de Agosto de 2008.

            O cara é capaz de atender uma vinte mesas simultaneamente, não errar nenhum pedido, trazer tudo à mesa em tempo recorde – ele voa pelo salão como um equilibrista carregado de bandejas e bebidas e distribui tudo pelas mesas com gestos ágeis e graciosos – e ainda tem uma piadinha na ponta da língua para cada cliente do bar do Edmundo. E mais: ninguém nunca foi ignorado pelo Zé, um verdadeiro radar.

            Parêntesis: o Edmundo, onde o Zé trabalha, é, na minha modesta opinião, um dos melhores botecos de Curitiba. Despojado e informal, serve o melhor camarão da cidade, sem exagero. Abraçadinho, no espetinho com provolone ou no bafo, é descaradamente fresco, grande, e vem sempre no ponto certo. A especialidade da casa é o buchinho à milanesa, que atrai um monte de gente ao bar, menos eu e alguns poucos companheiros de frescura. Gosto mesmo é do camarão de lá, mas também não recuso a casquinha de siri e a porção de cascudinho, impecável. E ainda tem o Zé. Fecha parêntesis.

            “Aqui no Edmundo tem o Zé Rico e o Zé Pobre. Eu sou o segundo.” Às gargalhadas, o garçom José da Silva, o Zé, faz piada com o patrão e homônimo, proprietário do bar, onde trabalha há doze anos. Zé faz o tipo clássico de garçom.

            Catarinense, nasceu na pequena cidade de Trombudo Central, conta que veio para Curitiba muito jovem, fugido da mulherada. “Eu era piá, fazia muita besteira…” diz, rindo muito, sem especificar o que realmente ocorreu. Em 78, empregou-se como copeiro em um hotel, passou a mensageiro e a gerente em pouco tempo. Depois, foi durante vários anos garçom de diversas churrascarias da cidade, como a Curitiba, Paiol e Churrascão Colônia, entre outras. Está no Edmundo desde 93, já fazendo parte do patrimônio do boteco. Seu principal lema é “nunca queimar o filme com o cliente”. Que, lembra, sempre tem razão. E renovar constantemente o repertório de piadas, grande responsabilidade para quem trabalha numa casa constantemente lotada.

            Sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, Zé perde o amigo mas não perde a risada. Em certa ocasião, havia uma única mesa com clientes, já pela hora do bar fechar, todos já virando a curva da boa esperança. Um deles foi ao banheiro e cruzou com o Zé, perguntando: “De onde que eu te conheço, hein?” “Não sei, deve ser das quebradas da vida…” Satisfeito com a resposta, o cliente voltou pra mesa. Quando o garçom levou a conta, ele exclamou “Ah, você de novo?” Coisas de bebum… Quando os clientes pedem o famoso camarão, ele nunca esquece de certificar-se: “Sem osso?” Crianção, adora bater de leve nos ombros das pessoas enquanto vai e vem pelo salão, para depois rir de todo mundo virando a cabeça pra trás. Coisa de Zé.

            Trabalhador “pé-de-boi”, como diz o outro, ele bate ponto de segunda a sábado no Edmundo, e aproveita o domingo para dar expediente numa churrascaria. Mas tudo bem, graças a todo esse empenho ele pode se orgulhar de sustentar a esposa e as duas filhas com conforto e dedicação. Moço de dotes, faz o almoço para a família diariamente e estende seus talentos culinários ao ambiente de trabalho, para felicidade dos clientes do Edmundo. A maionese rosé e o delicioso molhinho de pimenta obrigatoriamente servidos com os quitutes do bar são de autoria e confecção dele, assim como as batidas, suaves e etílicas na medida certa. Aos sábados, sob encomenda, prepara uma rabada que, nas suas palavras, ninguém nunca comeu igual, saborosa e suculenta, acompanhada de polenta mole, radice com bacon, aipim e farofa.

Bar do Edmundo - Avenida Erasto Gaertner, 1764,Bacacheri, fone (41) 3257-2407.

* texto adaptado do livro Chama o Garçom - botecos de Curitiba e as histórias que não vêm na conta, de Marcia Luz (eu) e Simone Mattos

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